A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira

A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira
Para ler A montanha Mágica é preciso fôlego de alpinista. 

A Montanha mágica, de Thomas Mann, que narra a história de Hans Castorp, não é propriamente um livro de fácil leitura, pois além de suas 986 páginas, possui um viés bastante filosófico, exigindo um pouco mais do seu leitor. No entanto, da mesma forma que, quando escalamos uma montanha, ao chegarmos no topo, recebemos a recompensa pelo sacrifício da subida, ao concluirmos a leitura desta obra, conseguimos nos sentir plenamente recompensados. 

Hans Castorp é, nas palavras do narrador, um jovem “singelo” que vai de Hamburgo, sua terra natal, ao sanatório de Berghof, na aldeia suíça de Davos-Platz, para visitar o primo Joachim, que se encontra enfermo. A intenção do protagonista é de passar apenas três semanas em companhia do parente, entretanto, ao aproximar-se o final do prazo, o rapaz descobre que também está doente e precisará permanecer internado no sanatório, onde ficará por sete longos anos.

Ao observarmos a estrutura de A montanha mágica percebemos que ela exibe, em sua forma, um espelho da sociedade e do homem atual. O protagonista Hans Castorp representa o indivíduo que vive em um mundo dilacerado, tentando encontrar um sentido para a vida. A obra pode ser entendida como a metáfora de uma sociedade enferma, que busca um equilíbrio social e espiritual, cada vez mais distantes em razão de um progresso e de um amadurecimento intelectual que tornam o homem mais questionador e mais angustiado com as incertezas existenciais. Encontram-se no sanatório de Berghof pessoas doentes de todas as etnias e crenças, compartilhando todo tipo de problemas, infortúnios, inquietudes, amarguras, ilusões e desilusões; mostrando nesse microcosmo o retrato de um mundo aos pedaços. 


O romance divide-se em sete capítulos antecedidos por duas páginas de uma explicação do narrador sobre o “propósito” de contar a história de Hans Castorp. Nessa pequena introdução o narrador explica que a história não deve ao tempo o seu grau de antiguidade, podendo ser bem mais velha do que a sua idade. A história de Hans Castorp não representa propriamente a história de um jovem “singelo”, mas a de toda a humanidade em busca de um sentido para a vida e, assim sendo, é atemporal, ou “mais velha que seus anos”. Os capítulos são marcados numericamente e divididos em subcapítulos. O primeiro narra a chegada do jovem ao sanatório, o encontro com o Joachim e suas primeiras impressões sobre o local. O segundo capítulo é uma grande analepse que mostra a infância do protagonista, e os demais relatam a estada do jovem no sanatório, sendo que as últimas seis páginas, aproximadamente, referem-se à volta de Hans Castorp à “planície”. 


O texto é narrado em terceira pessoa. O narrador comete várias intrusões no decorrer da história, fazendo comentários e dando suas opiniões. Além disso, ele demonstra possuir conhecimento sobre os pensamentos e os sentimentos do jovem protagonista e de seu primo, até mesmo quando os dois não falam sobre isso. 

O narrador permanece com esse distanciamento durante toda a narrativa, entretanto, no final, demonstra sentimentos de afeição por Hans Castorp e, ao mencionar o gesto de levar a mão ao olho para enxugar uma lágrima ao lembrar do “jovem singelo”, apresenta-nos a possibilidade de tratar-se do escritor humanista Settembrini, um dos personagens do livro. Nesse caso, o narrador deixaria de ser alguém de fora da narrativa para tornar-se uma testemunha dos fatos narrados. 


O tempo é de extrema importância em A montanha mágica. O homem da atualidade, que já superou a idade mítica da epopeia, angustia-se profundamente com as questões relativas à passagem do tempo, pois ela representa a proximidade da morte. “Sim, o tempo é um enigma singular, difícil de resolver.” (p.195)  
O romance é narrado “quase” todo em ordem cronológica. Quando se diz “quase” é porque, excetuando o segundo capítulo, que conta a infância de Hans Castorp, há poucas analepses e nenhuma prolepse. As raras voltas ao passado acontecem quando o protagonista recorda-se de fatos de sua infância, como a ocasião em que pediu o lápis emprestado a Pribislav Hippe, ou nos momentos em que o narrador conta a vida de Settembrini ou de Naphta. Salvo essas passagens, a história inicia com a chegada do jovem Hans ao sanatório, conta todas as transformações pelas quais ele passa em sua estada por lá e termina com sua volta à planície. A obra transcorre de forma a dar-nos a impressão de uma perda da noção do tempo. 

O tempo passa lentamente, arrastando-se, fazendo com que todos os dias sejam iguais uns aos outros. Essa passagem é marcada por “chegara o solstício de verão” (p.502), ou “o ano em breve completaria o giro (…)” (p.503), ou “E certa vez experimentou uma breve, mas violente vertigem ao recordar-se de que a aquilégia estava novamente em flor e o ano se fechava sobre si mesmo” (p.532). No início, o leitor pode ir acompanhando o tempo de permanência de Hans Castorp no sanatório, mas no decorrer da narrativa isso já não é mais possível. Somente no final do romance é que tomamos conhecimento de que, afinal, o jovem esteve na montanha por sete anos. Foi possível observar que as transformações ocorridas na natureza para marcar a passagem do tempo, afetam o espaço na obra, pois uma mesma paisagem que, em determinados momentos, está florida, em outros, está coberta de neve, fazendo com que, mesmo quando não conseguimos mais saber o tempo exato de permanência do protagonista no sanatório, percebamos que os anos estão passando. 

O espaço é fundamental para marcar o que se passa no interior do personagem. Há muitas mudanças inesperadas de temperatura que remetem a um momento existencial em que não há certezas nem ordem, somente indefinições. Ou, ainda, uma paisagem primaveril no verão apontando para uma transformação que levará a um novo recomeço. Em certas passagens em que a natureza mostra-se solitária e monótona podemos perceber o jovem Hans Castorp voltando-se para sua existência interior. 

Há a passagem em que Hans Castorp, interessado por um bosque, termina por escorregar em um abismo, tendo que despender bastante energia para conseguir voltar ao alto. Essa aventura reporta-nos ao aprendizado de Hans Castorp sobre si mesmo, pois a volta para o alto, após descer ao abismo, pode ser vista como a metáfora de elementos inconscientes do personagem que são trazidos à luz da consciência. Entretanto, se os espaços naturais são importantes por mostrarem a individualidade do protagonista e sua relação consigo mesmo, o espaço do sanatório não é menos significativo, pois é justamente esse que representa a sociedade e, é através dele que podemos constatar as críticas sociais presentes na obra. É aí que Hans Castorp se relaciona com as mais variadas pessoas e entra em contato com todo tipo humano possível, com as mais diversas ideias e filosofias. É onde conhece o “pedagogo” Settembrini e onde se apaixona por Madame Chaucha. É nesse espaço que, ao mesmo tempo em que sua doença progride, o jovem torna-se mais humano, deixando de lado a vida anterior, na qual sua única preocupação era consigo próprio, passando a interessar-se por questões de natureza mais universal sobre o sentido da existência.


Assim, o jovem protagonista, que antes não conseguia enxergar além da imagem aparente das coisas, como no caso do retrato do avô, que ele tomava como se fosse a imagem real do velho, agora consegue ver a realidade tal como ela é. É dessa forma que, aos poucos Hans Castorp vai tornando-se um outro ser, na medida em que o tempo passa. 


Essa nova visão de mundo faz com que o “filho enfermiço da vida” rompa com a planície. Há um determinado momento em que percebemos que Castorp parece não fazer mais questão de voltar. Então, Joachim, seu último elo com a planície parte “em falso”, marcando de vez esse rompimento. O jovem protagonista desistiu da planície. Mas, se essa partida assinala a desistência de Hans, a visita rápida e a partida ainda mais rápida de seu tio James sinaliza o momento em que planície desistiu dele. 


Mas, afinal, em seus anos de aprendizagem, o herói entende que não é possível modificar a condição humana, mas tentar se adaptar a ela de forma positiva e construtiva. Após sete anos, e após comer por aproximadamente um ano em cada uma das sete mesas do refeitório, fechando um ciclo e mais um círculo do movimento existencial de Hans Castorp, o filho enfermiço está pronto para voltar, finalmente, à planície e à vida. 



A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira