Mulheres que não sabem chorar, de Lilian Farias - Giz Editorial


Não me lembro da última vez que um livro me fez sentir tanta empatia por algumas personagens. Tampouco lembro-me da última vez em que chorei lendo uma boa história. Sim, eu sou do tipo que se envolve com personagens, que se emociona com suas tristezas. Mas Mulheres que não sabem chorar, de Lilian Farias,  Giz Editorial, surpreendeu-me com sua imensa carga emocional. Não esperava envolver-me tanto assim, não esperava chorar ao compartilhar, com essas personagens femininas, de suas dores, dissabores e desamores.

Abordando temas polêmicos, como homossexualidade feminina, violência contra a mulher e alcoolismo, a autora leva-nos a refletir sobre questões que estão presentes no nosso cotidiano e sobre as quais, na maioria das vezes, não paramos para pensar. O romance apresenta-nos quatro mulheres: Marisa, Olga, Ana e Verônica. Cada uma delas com sua história de vida, com suas dores e tragédias pessoais. Cada uma delas lutando para sobreviver em um mundo hostil, no qual a violência contra a mulher é vista como algo natural. 

Recebi o livro autografado. Gesto de delicadeza da autora, Lilian Farias.

A jovem Ana, em um dia de desespero, conhece Verônica, e encanta-se por aquela mulher tão bela e doce. Entretanto, a vida a tornou acostumada a fugir, e é isso que ela faz. Cada uma segue o seu caminho, Verônica com o seu casamento e Ana com os relacionamentos rápidos e a sua análise, que a ajuda a superar os traumas de uma infância repleta de abusos e violência. Enquanto Ana não conseguir resolver-se internamente, não conseguirá amar com a entrega que tal sentimento requer.

Olga e Marisa, após anos de atritos e hostilidades, em um momento de profunda solidão de ambas, a primeira porque perdeu a filha para um câncer, a outra porque acabara de despedir-se dos filhos, que foram para o exterior, descobrem-se e apaixonam-se. Olga, que sofria de alcoolismo, ao voltar para casa embriagada, é estuprada e brutalmente agredida até ficar desacordada. Marisa a socorre e cuida dela durante alguns dias, o que as aproxima. Marisa começa a observar o agressor de Olga e descobre que ele tem o hábito de violentar mulheres, algumas até a morte. Ao tramar uma vingança contra este homem, Marisa faz com que o destino dessas mulheres se cruze, encaminhando a narrativa para o seu desfecho, que para mim foi muito tocante.

Mulheres que não sabem chorar, de Lilian Farias, é um belíssimo romance que, escrito com a alma, toca profundamente a alma de quem o lê. É um texto sensível, que trata da sobrevivência de mulheres que se colocaram acima da própria dor. Trata do perdão, a si e aos outros. Não é à toa que o verbo ressignificar aparece algumas vezes durante o desenrolar da trama. Recomendo a leitura da obra a pessoas com a mente aberta, livres de preconceito. Mas recomendo, também, a pessoas que precisem fazer uma revisão de seus conceitos (e preconceitos), que precisem de uma bela oportunidade para olhar o mundo com novos olhos. Para encerrar, só posso dizer que Mulheres que não sabem chorar está, seguramente, entre os melhores livros que li nos últimos meses.